Reuniões de A.A. para internacionalistas e solitários

(Loners – Internationalist Meetings, LIM)

Título original: “El Capitán Jack: el marinero solitario que inició un movimiento”
 
Em janeiro de 1946 apareceu na revista The Reader’s Digest um artigo escrito na primeira pessoa com o título “A minha volta do submundo do alcoolismo”, um relato de recuperação condensado da A.A. Grapevine. Chegou no momento mais oportuno às mãos de Jack S., um homem de meia idade, oficial da marinha mercante, que, depois de anos de luta estava-se afundando num mar de álcool. Impressionado com o relato, escreveu uma carta ao Escritório de Serviços Gerais – ESG, em Nova York solicitando informação, assistiu reuniões em Boston e embarcou numa viagem pessoal que acabaria por beneficiar milhares de alcoólicos em todas as partes do mundo.
 
O Capitão Jack, como é conhecido nos círculos de A.A., foi a figura chave para dar início às Reuniões de Solitários e Internacionalistas – RSI (*) (Loners – Internationalist Meetings, LIM), um serviço de correspondência confidencial que chega aos membros de A.A. do mundo inteiro que se encontram impossibilitados de participar das reuniões regulares. Um boletim bimensal é coordenado por um membro do ESG.
 
Os Solitários são membros de A.A. que residem ou trabalham em zonas isoladas onde, numa distância razoável, não há reuniões de A.A. Os marinheiros são conhecidos como Internacionalistas, e podem organizar grupos a bordo de seus barcos. Os AAs que estão confinados em suas residências devido a enfermidade ou impedimento físico chamam-se Residentes.
 
Os membros do RSI compartilham suas experiências, forças e esperanças uns com outros através de correio eletrônico ou correio postal e com frequência estabelecem amizades duradouras.
 
Ainda em seus primeiros anos, A.A. tentava ajudar pessoas em condições de isolamento que não contavam com o contato frequente de outros membros da Irmandade. Bill W. e os poucos membros do ESG de Nova York, tentavam solucionar este problema trocando cartas com os solitários da mesma maneira que o faziam com os membros que estavam iniciando grupos regulares em suas comunidades locais. A finalidade desta correspondência era a de que homens e mulheres pudessem manter sua sobriedade mesmo sem ter contato pessoal com outros AAs, e, não podendo se reunir pessoalmente podiam se corresponder entre eles e com o ESG. Isto funcionou e nos Arquivos Históricos de A.A. existem numerosas cartas de solitários que conseguiram se manter sóbrios nas mais difíceis situações.
 
O Capitão Jack residiu em Sharon, Massachusetts durante seus muitos anos de marinheiro. Escreveu sua primeira carta ao ESG (então conhecido como Fundação do Alcoólico), em 28 de março de 1946, numa época em que a Irmandade, mesmo pequena, crescia muito rapidamente. Esse foi o começo de uma correspondência regular entre ele e seus novos amigos de ESG a quem logo iria conhecer pessoalmente. Bill W. parecia estar impressionado com a recuperação deste marinheiro que tinha exercido a carreira de bebedor pelos “sete mares dos cinco continentes”.
 
 Jack foi oficial da Marinha de Guerra dos EUA durante a Primeira Guerra Mundial e depois começou a trabalhar como oficial na marinha mercante. A economia do país estava passando por uma fase ruim e Jack teve de começar como simples marinheiro embora tivesse licença de capitão. Quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial, encontrava-se a bordo de um petroleiro no Atlântico Norte. Ao final da guerra estava a bordo de um navio no Pacífico Sul, quando leu o artigo que iria mudar sua vida.
 
Em outubro de 1947 visitou o ESG pela primeira vez e conheceu Bill W. “Disseram-me que se tinha A.A., poderia ir a qualquer lugar do mundo e me manter sóbrio. Bill me ajudou a colocar alguns livros na minha sacola de marinheiro”, ele disse. Ele ganhou um prêmio numa loteria que consistia de três exemplares do Big Book; deixou um em Xangai, outro em Singapura com um, médico e o terceiro com um agente de Abadam, uma ilha no Irã.
 
Enquanto levava a mensagem de A.A. a portos distantes, Jack começou a adquirir certa reputação por seu trabalho pela Irmandade. O engenheiro de um dos portos visitados por Jack disse que o capitão se manteve sóbrio durante 14 meses a bordo de um petroleiro trocando correspondência com o ESG e fazendo o 12º Passo com outros marinheiros e estava-se convertendo “num verdadeiro Internacionalista”. Jack consultou o dicionário e ficou sabendo que internacionalista é uma pessoa que tem algo em comum com dois ou mais países do mundo. Escreveu ao ESG sugerindo que fosse dado o nome de Internacionalistas ao grupo mundial de Solitários. O ESG começou a lhe remeter cartas com essa denominação.
 
Jack costumava visitar o ESG quando passava por Nova York e os funcionários tinham por ele grande carinho e admiração. Charlotte L., uma secretária do ESG, foi quem respondeu sua primeira carta. Ela lhe enviou uma lista de membros e grupos nos possíveis portos que ele iria visitar, e, por ela mesma ser alcoólica, lhe assegurou que compreendia o que era ser solitária no programa. “Quando comecei estava sozinha e as cartas tinham um valor incalculável” disse, e acrescentou que tinha havido ocasiões em que se encontrando distante dos grupos, a correspondência com outro membro foi muito importante para ela.“Portanto, continue a nos escrever se isso lhe fizer bem. Inclusive, e mesmo sem os grupos, é possível que possa ajudar outra pessoa”.
 
Também fez viagens a Palembang, na ilha de Sumatra, que agora faz parte da Indonésia, porém à época fazia parte das Índias Orientais Holandesas. Nessa cidade contatou um Solitário de A.A. chamado Frank F., cujos dados tinha recebido no ESG. “Sempre me lembro de Frank porque ele era o que eu precisava e eu o que ele necessitava”, disse Jack.“Desde então fui distribuindo literatura por onde passava Xangai, Cidade do Cabo, Bornéu, Singapura, Madras”.
 
Continuou a viajar entre Bombaim, na Índia e o Golfo Pérsico e outros portos petrolíferos da Austrália, África do Sul e Ásia, Porém, o tempo que passava nesses portos costumava ser entre oito e dezoito horas e sendo assim, grande parte de seus contatos com AAs era através do correio. Na maioria de suas cartas falava de como A.A. funcionava para ele e inclusive lhe ajudava na sua função de Capitão de navio. A visitar vários portos se lembrava das experiências infelizes de visitas anteriores quando ainda bebia.
 
Desde 1946 até 1948 escreveu muitas cartas enquanto sulcava os mares ou desde portos longínquos. Numa delas, escrita numa viagem de Calcutá a Palembang no dia 15 de julho de 1948 dizia “Pela Graça de Deus, ontem completei dois anos de sobriedade”. Durante esse tempo todo manteve em seu camarote uma garrafa de uísque sem abrir, e assim continuou fechada a pesar das tormentas e outras dificuldades. Na etiqueta dessa garrafa tinha escrito, “É meu desejo que esta garrafa somente seja aberta para ajudar a tirar a embriaguez de bêbados que queiram que essa bebedeira seja a última. Se os funcionários da alfândega a querem, pode ficar com eles. Eu não a quero”.
 
A partir do número de setembro de 1948, a Grapevine começou a publicação, em três edições subsequentes, da história de recuperação do Capitão Jack com o título de “Um solitário em alto mar”.
 
A cada visita aos portos ele ia acrescentando nomes na sua lista de contatos de Solitários/ Internacionalistas e compartilhando-as com o ESG. Cooperou com o escritório na preparação do “The Internacinalist Round Robin”, publicado em 1949 e enviado a todos que constavam na lista de Internacionalistas. Isto se converteu no “LIM Bulletin”, um boletim de seis páginas de cor amarela, onde apareciam cartas de Jack e outros Internacionalistas notificando onde se encontravam e como funcionava o programa para eles. Embora originalmente fosse destinado aos Internacionalistas – principalmente aos marinheiros, membros de A.A., este serviço foi ampliado em 1976 para incluir outros solitários. O serviço chegou a ser de tanta importância para os solitários, internacionalistas e residentes que atualmente o ESG produz um diretório confidencial especial apenas para os membros do RSI.
 
Jack continuou trabalhando a bordo de navios petroleiros até a idade estabelecida pela companhia para sua aposentadoria, em 1961. Então, o Capitão Jack Já não era mais um solitário; mudou-se com sua mulher para Cabo Elizabeth, Portland, Maine onde fixou residência.
 
Não é de surpreender que o Capitão Jack tenha-se transformado no patriarca dos grupos de Portland, onde fez uma multidão de novas amizades. Jack viajou à Convenção Internacional de Montreal e também assistiu a uma “Reunião de Veteranos” organizada por Lois em Stepping Stones
 
O Capitão Jack morreu em 28 de dezembro de 1988 aos 91 anos, poucos meses depois de comemorar seu 42º aniversário de sobriedade em AA. Era capitão de navios petroleiros de uma das grandes companhias petrolíferas. Viajou a muitos portos do mundo e levou a mensagem de A.A. a lugares remotos raramente visitados por poucas pessoas. Hoje em dia é lembrado com carinho por seu papel na criação deste serviço de A.A. que é RSI. Até os últimos dias de sua vida nunca deixou de se corresponder com seus amigos de A.A.
 
(*) A sigla RSI é uma liberalidade do transcritor para indicar LIM.
 
Para saber mais:
 
Material de Serviço do Escritório de Serviços Gerais.
Solitários Internacionalistas – Serviço de Correspondência
 
A Reunião Solitários-Internacionalistas (LIM) é um boletim bimestral confidencial, enviado para Solitários, Residentes, Internacionalistas, Padrinhos de solitários e Contatos de Porto. O boletim contém trechos de cartas de membros LIM e inclui nomes completos e endereços. LIM é distribuído unicamente para os membros acima mencionados que precisam de confidencialidade da partilha pessoal por meio de correspondência.
 
Um membro da equipe do ESG coordena o serviço de correspondência dos Solitários, Residentes e Internacionalistas que é aberto aos membros de A.A. listados numa das categorias abaixo.
 
Categorias:
1)      Solitários:são membros de A.A. que residem ou trabalham em zonas isoladas onde, numa distância razoável, não há reuniões de A.A.
2)      Residentes: são membros de A.A. que estão confinados em suas residências devido a enfermidade ou impedimento físico
3)      Internacionalistas: são membros de A.A. trabalhando em navios de mar por longos períodos.
4)      Contato de Porto: é um membro de A.A. disposto a servir de contato para Internacionalistas quando da sua chegada aos portos.
5)      Padrinho de Solitários: é um membro de A.A. com presença ativa nas reuniões de A.A. locais e compartilha as experiências e atividades desses grupos com Solitários, Residentes e Internacionalistas por meio de correspondência.
 
Obs.: um padrinho de solitários não é um Solitário ou um “padrinho” no sentido tradicional de A.A.
 
Para participar, um membro de A.A. precisa:
1)      Ler e escrever em inglês.
2)      Fornecer um endereço permanente para correspondência.
3)      Estar disposto a compartilhar suas experiências, forças e esperanças através de correspondência. A maioria dos membros LIM se corresponde via correio postal, mas também podem fazê-lo via correio eletrônico.
 
Para receber o Boletim confidencial bimestral Reunião Solitários-Internacionalistas (LIM), o Box 4-5-9 além do Diretório anual de Solitários, Residentes, Internacionalistas, e listas de membros LIM, publicados pelo GSO, os membros de A.A. interessados que se enquadram nas categorias LIM, deverão entrar em contato com o Escritório de Serviços Gerais, PO Box 459, Grand Central Station, New York, NY 10163, ou correio eletrônico:lim@aa.org
 
Uma visão geral da historia LIM
 
O primeiro boletim LIM foi impresso em 1949 com o título de “Os internacionalistas Round Robin” e continha umas poucas páginas e continha alguns excertos de cartas recebidas no ESG e enviado a um pequeno grupo de Internacionalistas decididos a ficarem sóbrios, não importando o quanto estivessem isolados.
Em 1963, o boletim consistia de cinco ou seis páginas mimeografadas em azul. Em 1976 os Solitários e os Internacionalistas fundiram-se numa única Reunião. Desde março-abril de 1980 o boletim passou a ser impresso nas hoje familiares páginas amarelas.
 
LIM começou através dos esforços do Capitão Jack S., um marinheiro que encontrou a sobriedade em A.A. e para mantê-la compreendeu que precisava se corresponder com outros membros da Irmandade.
 
Inicialmente, o Capitão Jack procurava contatos nas cidades portuárias. Numa carta datada em 28 de março de 1946, o Capitão Jack solicitou ao ESG informações a respeito de contatos porque ele estava “anda no mar, em um navio petroleiro onde tenho servido por dez anos. Tenho alguns contatos em terra com membros de A,A, e somente posso cofiar no livro e no andar de cima”. Então, um membro do pessoal do ESG enviou uma lista de contatos nos portos e cidades nas quais poderia chegar e o encorajou a escrever para outros membros trabalhadores no mar, e foi o que ele fez.
 
 
Após a publicação pela Grapevine de um artigo de três partes, a partir do número de setembro de 1948, contando a história de recuperação do Capitão Jack com o título de “Um solitário em alto mar”, começou a tomar forma a ideia de começar uma reunião de Internacionalistas através por correspondência e foi solicitado ao ESG que indicasse um coordenador com essa finalidade. Foi sugerido o nome do Capitão Jack para iniciar um grupo a quem ele deu o nome de “Grupo Internacionalista do Extremo Oriente”, alegando que esse nome “…iria deixar a Irmandade aberta aos membros solitários estacionados em terra no Extremo Oriente e também aos navegadores dessas águas sob bandeiras de diferentes nações”.
 
Alguns AAs atribuem parte do crescimento fenomenal de A.A. no mundo todo durante esses anos, ao Capitão Jack e a centenas de Internacionalistas como ele, que, navegando pelos sete mares, levou a mensagem de A.A. onde quer que ancorasse.