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Amigo Anônimo

aanonimoui

Aanonimo

Sobre um momento especial vivido em A.A.

MATÉRIA PUBLICADA NA VIVÊNCIA

DR. LAÍS MARQUES DA SILVA

EX-CUSTÓDIO E PRESIDENTE DA JUNAAB

Fica difícil selecionar um momento especial para focá-lo como uma experiência de vida que se destacasse por sua importância ou pela intensidade emocional. Isso porque foram numerosas as ocasiões em que momentos de grande felicidade foram vividos ao longo de nove anos em que atuei como custódio da Irmandade de Alcoólicos Anônimos. De qualquer forma, a tarefa tinha que ser feita e dentro de prazo curto, já determinado.

Assim, deixei que chegasse à minha lembrança, espontaneamente, o que eu sentisse como de significação maior e, entre muitas, destacava-se um momento muito especial e vivido com intensa emoção.

Em 1992, tive a subida honra de ser indicado pelos meus pares para representar, como delegado, a nossa irmandade na 12ª Reunião Mundial de A.A., realizada em Nova York. Foi uma reunião esplêndida e lá estavam representados mais de quarenta países e, para nossa felicidade, também o AA brasileiro. Estar naquela reunião representava um esforço considerável e traduzia o resultado de um ideal de participação a nível mundial que mobilizava muitos dos mais atuantes membros de A.A. daquele tempo. Compreendiam a necessidade da presença e a riqueza das vivências compartilhadas, além do muito que se poderia aprender e trazer para o AA brasileiro. De um encontro dessas dimensões sempre resulta um alargamento da nossa visão, um alcance maior para a compreensão do quanto representa, da importância, em termos realmente mundiais, a existência da nossa maravilhosa irmandade.

Dos muitos e enriquecedores momentos vividos em reuniões e em conversas de corredor, sempre muito preciosos, houve um que me emocionou sobremodo. É que, numa bela manhã, todos muito felizes e iniciando mais uma jornada de intenso trabalho, os organizadores da reunião resolveram convidar delegados de diversos países para fazerem a oração da serenidade nas suas respectivas línguas. E foram selecionados delegados que, falando idiomas diferentes, cerca de 15, deviam, diante de todos os presentes, fazer a oração da serenidade. Pois bem, lá estava eu neste momento tão especial. Foram feitas orações em línguas que eram familiares, outras, em línguas não estranhas e me lembro de um som nunca ouvido na minha vida e que me soou de forma muito peculiar. Foi o momento em que a oração foi feita em língua flamenga. Som ininteligível, totalmente diferente, quase exótico. Mas que trazia exatamente a mesma mensagem que tanto conhecemos.

Ao fazer a oração, me senti tomado de intensa emoção. A minha voz era a de mais de uma centena de milhar de companheiros brasileiros que estava sendo levada a membros de AA de todos os continentes deste mundo e que ali estavam presentes num momento tão especial.

Lembrei-me, naquele instante, das maravilhosas recuperações que sempre me encantaram, dos amigos mais chegados. Vieram as lembranças dos depoimentos daqueles mais humildes que tantas vezes ouvira falar e que me tinham levado às lágrimas. Pois bem, lá estava eu vivendo este momento em que a minha voz era também a voz de todos eles. Senti o significado do momento, a sua importância e a honra de ter sido escolhido mas, sobretudo, que falava por todos os companheiros do A.A. do Brasil. Lembrei-me de todos, dos que conheci e daqueles a quem desconhecia, mas cujas presenças também sentia naquele momento. Felizmente, o coração, já não muito novo, suportou a este inesperado teste, mais intenso do que todas as sobrecargas das ergometrias por que passara. Foi bom porque permaneci vivo e pude desfrutar de um dos momentos mais intensamente por mim vividos.

 

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