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O caminho da honestidade

POUCOS ANOS APÓS A FUNDAÇÃO DE A.A., BILL W. ESCREVEU, NO LIVRO ALCOÓLICOS ANÔNIMOS: RARAMENTE VIMOS ALGUÉM FRACASSAR TENDO SEGUIDO CUIDADOSAMENTE NOSSO CAMINHO.

Era uma afirmação corajosa, mas o cofundador de A.A. confiava, por experiência própria, naquilo que dizia. E acrescentava: Os que não se recuperam são pessoas que não conseguem ou não querem se entregar por completo a este programa simples, em geral homens e mulheres que, por natureza, são incapazes de serem honestos consigo mesmos. Não é sua culpa, parecem ter nascido assim. São, naturalmente, incapazes de aceitar e desenvolver um modo de vida que requeira total honestidade. O caminho da honestidade, a forma como o programa funciona, estava traçado desde o primeiro texto-base da Irmandade. Mais de 20 anos depois, em agosto de 1961, Bill voltaria a esse tema central num artigo para a Grapevine, intitulado ?Essa questão da honestidade, do qual extraímos um resumo, transcrito a seguir. AUTOILUSÃO O problema da honestidade toca quase todos os aspectos das nossas vidas. Existe, por exemplo, o difundido e intrigante fenômeno da autoilusão, e existem também aquelas situações nas quais nada além da total honestidade irá funcionar, não importa o quão dolorosamente possamos ser tentados pelo medo e pelo orgulho a nos reduzir às meias-verdades ou às negações imperdoáveis. Vamos observar primeiro o que a autoilusão pode fazer com a integridade moral de uma pessoa. Eu costumava ter uma crença exagerada na minha própria honestidade. Minha família havia me ensinado a honestidade de todos os compromissos e contratos comerciais. Eles insistiam em afirmar que A palavra de um homem é a sua obrigação. Depois desse condicionamento, a honestidade comercial sempre foi fácil para mim. No entanto, esse pequeno fragmento de virtude facilmente conquistado gerou algumas responsabilidades interessantes. Eu era tão absurdamente orgulhoso das minhas normas comerciais que alardeava um desprezo pelos outros corretores, propensos a enganar seus clientes no troco. Isso já era bem arrogante, mas a autoilusão resultante foi ainda pior. A minha tão decantada honestidade comercial converteu-se num disfarce sob o qual eu ocultava as diversas falhas sérias que envolviam outros departamentos da minha 
vida. Estando seguro dessa única virtude, era fácil concluir que eu possuía todas as outras. Isso me impediu durante anos de dar uma boa olhada em mim mesmo. Este é um exemplo muito comum da fabulosa capacidade de autoilusão que quase todos nós podemos desenvolver. Além disso, a ilusão imposta aos outros está quase sempre enraizada na ilusão que impomos a nós mesmos. 

A MANEIRA E A HORA DE DIZER A VERDADE

A maneira e o momento em que dizemos a verdade ou ficamos calados pode significar a diferença entre a integridade genuína e a total falta de integridade. O Nono Passo adverte-nos enfaticamente contra o uso errôneo da verdade, ao afirmar: Fizemos reparações diretas a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem. Isso significa que a verdade pode ser usada tanto para sanar quanto para ferir. Esse princípio tem uma ampla faixa de aplicações ao problema da integridade. Por exemplo, em A.A., falamos muito uns sobre os outros. Desde que nossos motivos sejam bons, não há nada de errado nisso. Mas os mexericos prejudiciais são bem diferentes. É claro que um mexerico pode ser fundamentado em fatos. Mas nenhum abuso desses fatos pode ser ligado à integridade. É impossível sustentar que esse tipo de honestidade superficial seja 
bom para alguém. Depois de uma sessão de mexericos, poderíamos nos perguntar: Por que dissemos aquilo? Estávamos apenas tentando ser úteis e informativos? Ou estávamos tentando nos sentir superiores, confessando os pecados dos outros? Será que, devido ao medo e à antipatia, não estávamos na realidade tentando prejudicá-los? Essa seria uma tentativa honesta de examinarmos a nós mesmos, ao invés de examinarmos aos outros. Aqui, vemos a diferença entre o mau uso e o uso correto da verdade. É exatamente aqui que começamos a readquirir a integridade que havíamos perdido. 

VERDADE E BONDADE 

Às vezes, porém, nossos verdadeiros motivos não são identificados de maneira tão fácil. Existem ocasiões em que acreditamos ser nosso dever revelar fatos prejudiciais, para interrompermos os danos feitos por pessoas malevolentes. Tudo pelo bem de A.A. ou o que quer que você pense torna-se agora nosso lema. Empunhando essa justificativa geralmente falsa, iniciamos orgulhosamente nosso ataque. É verdade que pode haver uma necessidade genuína de corrigir uma situação prejudicial. É verdade que poderemos ter que usar alguns fatos desagradáveis. Mas o teste real é a maneira como nos comportaremos. Temos que ter certeza de não sermos o roto que fala do esfarrapado. Para isso, podemos colocarmos as seguintes perguntas: Entendemos realmente as pessoas que estão envolvidas nessa situação? Temos certeza de conhecer todos os fatos? É realmente necessária alguma ação ou crítica da nossa parte? Temos absoluta certeza de que não estamos nem amedrontados nem irados? Somente depois desse escrutínio, teremos certeza de agir com critérios cuidadosos e dentro do espírito de benevolência, indispensáveis para manter nossa própria integridade. Em sua maioria, as situações que exigem honestidade absoluta são nítidas e facilmente reconhecíveis. Temos simplesmente que enfrentá-las, independentemente do nosso medo e do nosso orgulho. Se não conseguirmos, sofreremos daqueles conflitos que só podem ser resolvidos através da sincera honestidade. 
Existem, entretanto, ocasiões em que a afirmação imprudente da verdade pode causar destruição e prejuízos para terceiros. Sempre que isso ocorrer, poderemos cair num penoso impasse, divididos entre duas tentações. Para aliviar nossa consciência, poderemos mandar para o espaço a prudência e o amor, tentando comprar nosso alívio contando a verdade brutal, não importando quem saia ferido ou o quanto saia ferido. Mas essa não é a tentação habitual. É mais provável que nos inclinemos para o lado oposto: pintarmos, para nós mesmos, um quadro irreal dos terríveis prejuízos que estamos prestes a causar aos outros. Alegando compaixão e amor pelas nossas supostas vítimas, estaremos nos preparando para contar a Grande Mentira e, ainda por cima, sentirmo-nos confortáveis com isso. 

CONSELHEIROS SÁBIOS E BENEVOLENTES 

Quando enfrentarmos um conflito como esse, não será nossa culpa se ficarmos confusos. Na verdade, nossa primeira responsabilidade será admitir que estamos confusos, que perdemos a capacidade de diferenciar o certo do errado. Nesse ponto, teremos que procurar nossos melhores amigos. Se eu não tivesse sido abençoado com conselheiros sábios e benevolentes, poderia ter me acabado há muito tempo. É claro que não podemos nos apoiar nos amigos para resolver todas as nossas dificuldades. Um bom conselheiro nunca desenvolverá todo o raciocínio por nós. Ele sabe que a escolha final terá que ser nossa. Então, ele nos ajudará a eliminar o medo, os estratagemas e a autoilusão, capacitando-nos a fazer escolhas benévolas, sábias e honestas. Esse intercâmbio apresenta vantagens incalculáveis, como a oportunidade perfeita para sermos tão honestos quanto possível. Não teremos que pensar no risco de prejudicar outras pessoas, nem precisaremos temer o ridículo ou uma condenação. Teremos, também, uma excelente oportunidade de identificar a autoilusão. Se estivermos iludindo a nós mesmos, um conselheiro competente perceberá isso rapidamente. E, à medida em que ele nos orientar para longe das nossas fantasias, descobriremos que aqueles impulsos para nos defendermos de verdades desagradáveis ficarão cada vez mais raros. Não há outra forma de eliminar rapidamente o medo, o orgulho e a ignorância. Depois de algum tempo, perceberemos que estamos alicerçados em fundações totalmente novas para a integridade. 

A VERDADE LIBERTA 

Prossigamos, sempre, em nossa pesquisa sobre a autoilusão, seja em pequena ou grande escala. Temperemos a honestidade com a prudência e o amor. E não nos afastemos nunca da retidão total, sempre que essa for a exigência. A forma pela qual a verdade nos torna livres é algo que nós AAs entendemos muito bem. Ela rompe as 
cadeias que nos prendiam ao álcool. Ela continua a nos libertar dos conflitos e das misérias; ela expulsa o medo e o isolamento. Possamos, portanto, apressar nossa busca por uma honradez genuína e aprofundar esses princípios em todas as nossas atividades.

 Bill W.
 (Síntese do artigo Essa Questão da Honestidade, do livro
  A Linguagem do Coração, págs. 307 a 313) Edição: 178 - Página: 10