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Dois mensageiros

Onde poderia escapar de minhas dúvidas sobre todas as crenças que eu já tinha tido medo de perguntar?

Senti-me preso em meu quarto de hotel, preso pela minha própria ansiedade e indecisão. Os acontecimentos da noite anterior tinham sacudido fortemente o alicerce espiritual já fraco do meu programa de A.A.. Apesar das condições que eu atribuí à aceitação de um Poder Superior a mim mesmo, permaneci sóbrio durante quase quatro anos. Agora, eu estava cheio de medo do abandono por um Deus no qual eu nunca tinha realmente acreditado.

O quarto enfatizou o meu desespero. Era um esconderijo. Eu estava me escondendo do meu chefe, cujo desafio para minha fé me fazia sentir impotente e sozinho. E estava me escondendo de tudo que estivesse além daquelas paredes, porque minha insegurança fez com que tudo e todos se tornassem uma ameaça. Era como nos velhos tempos, quando o melhor que eu conseguia fazer era

levar minha garrafa para um lugar secreto e me isolar do mundo.

O sermão havia começado no jantar e continuou até tarde da noite.

Mas saber que estava me escondendo só aumentou o meu tormento. Onde mais eu poderia ir? Onde poderia escapar de minhas dúvidas sobre todas as crenças que eu já tinha tido medo de perguntar? Em uma sóbria me respondeu.

Achei o número na lista telefônica de Chicago, mas não liguei, e sabia que estava evitando a Irmandade que tinha salvado a minha vida. Minha mente se voltou para a noite anterior. O sermão havia começado no jantar e continuou até tarde da noite. Meu chefe tinha entusiasticamente ex-posto em suas bases, as crenças cristãs. A força de suas convicções e suas exortações, cuja fé eu deveria abraçar, só serviu para aumentar o receio que eu tinha da rendição a qualquer coisa, além de A.A. como uma fonte de ajuda para alcoólicos. Reagindo na defensiva, eu tinha combatido os seus argumentos com as frases que tinha aprendido: Deus na forma em que O concebíamos… Viemos a acreditar em um Poder Superior a nós mesmos… Sua vontade em relação a nós… Mas eram palavras ditas com a cabeça, e não com o coração. Elas eram lançadas como uma cortina de fumaça para esconder minhas dúvidas interiores.

Enquanto conversávamos, o poder dos sinais de perigo aumentou. Meu dia de palavras vãs para o Segundo e o Terceiro Passos estavam chegando ao fim, e eu podia sentir o vazio em minha alma. “Como?”, eu me perguntava, “você começa a acreditar em algo que você pregou acreditar o tempo todo?”.

Pensei novamente em ir a uma reunião. Mas estava com medo, assustado com a minha própria hipocrisia, com medo de sua exposição. Mesmo se eu pudesse encontrar conforto lá, rodeado pelo único poder que estava disposto a aceitar, não estava disposto a experimentar a solidão vazia que viria depois de deixar Deus, na forma em que eu O concebi, depois da reunião.

A necessidade de sair do meu quarto se tornou mais urgente, mas, para onde deveria ir? Para o restaurante do hotel? Talvez até ao bar para beber um pouco, só para me sentir parte de algo? Nenhuma das opções era aceitável.

Finalmente, decidi sair do hotel para encontrar uma lanchonete em algum lugar. A decisão não fazia qualquer sentido, e eu sabia disso. Uma tempestade se anunciava lá fora. Chicago era uma cidade estranha. Não estava com fome. Mesmo assim me vesti o terno, gravata e, sobretudo e desbravei a noite de neve. Eu não tinha idéia de para onde estava indo. Mas Alguém sabia.

Deus estava prestes a se apresentar. Atravessei a Michigan Avenue e tinha andado uns poucos metros além do meio-fio, quando um homem saiu de uma porta sombria. Ele estava com barba por fazer e roupas muito sujas, como se não as trocasse há muito tempo. Havia furos na ponta da touca encardida, puxada para baixo firme-mente, em torno de suas orelhas pa-ra afastar o frio congelante.

Suas mãos mergulharam profundamente nos bolsos do casaco do Exército, desbotado e encardido. “Ei, senhor, você pode me ajudar?”. Minha reação inicial foi ignorá-lo. Mas parei impulsivamente. Ele era muito mais jovem do que parecia, à primeira vista, talvez tivesse uns vinte e tantos anos. “Você pode me emprestar $0,50 para um hambúrguer, senhor? Não como desde ontem.”

Enquanto ele falava, o velho aroma de vinho barato já conhecido me inundou, dominando o frescor da neve que caía. Parte de mim quis recusar. Eu sabia que o dinheiro não seria gasto em um hambúrguer. Mas me lembrei de como era, como a necessidade de uma bebida poderia re-virar entranhas e provocar dor no corpo todo. Lembrei-me de como a primeira golada poderia acalmar os

“Pensei novamente em ir a uma reunião. Mas estava com medo, assustado com a minha própria hipocrisia, com medo de sua exposição.” Demônios, mesmo que apenas por pouco tempo. Retirei um dólar e o mostrei com a mão trêmula. Eu que-ria dizer algo mais, que uma outra escolha era possível. Mas eu não consegui. “Obrigado, senhor”. Murmurei que estava tudo bem, e comecei a me afastar. “Ei, senhor, sabe onde posso encontrar uma reunião de A.A. por aqui?”. As palavras me atingiram com uma força estrondosa. Senti uma dormência latejando pelo meu corpo. Eu desconfiava de meus ouvidos. “O quê?”, perguntei incrédulo. “Uma reunião de A.A. Eu… Eu não consigo parar de beber”.

A incongruência da situação foi esmagadora. Por que um mendigo sujo perguntaria a um respeitável empresário sobre uma reunião de A.A.? Como ele seria capaz de pensar que eu saberia? No entanto, à medida que olhava para ele em silêncio e atordoado, vi o desespero que havia tido há tantos anos, eu tinha a resposta.

“Eu não sei”, consegui dizer. Senti-me de repente flutuante. “Mas nós vamos encontrar juntos. Eu também sou um alcoólico”. Encontramos um telefone público nas proximidades. Liguei para o Escritório Central para saber da localização da próxima reunião. Meu amigo alcoolizado precisou me dizer onde estávamos.

“O Grupo Semente de Mostarda”, disse a voz amigável de uma mulher. “Você está a apenas um quarteirão de lá.” Outro choque. Enquanto eu procurava o número de tele-fone do A.A. no meu quarto, havia notado um anúncio separado sobre o Grupo Semente de Mostarda.

Pareceu-me um nome interessante e me chamou atenção. Mas com a minha ignorância da geografia de Chicago, parecia estar a quinze quilômetros do meu hotel. Não estava. Estava a menos de dois quarteirões de distância. A reunião já havia começado quando entra os na sala.

Fomos direcionados para duas cadeiras no lado externo do semi-círculo de participantes. Um microfone de mão estava sendo passado para cada pessoa. Minha mente estava cambaleando. Levou algum tempo até eu tomar conhecimento do assunto em discussão. Era o Terceiro Passo.

Eu me senti como se estivesse vivendo uma fantasia, preso de alguma forma em uma conspiração de coincidências, além da minha compreensão. Lembrei-me do meu primeiro dia em A.A., quando me disseram para orar, acreditando ou não. Eu era um ateu alcoólico que bebia diariamente e era incapaz de permanecer sóbrio por muito tempo.

Com a sobriedade em jogo, estava disposto a tentar. Nos últimos quatro anos, eu rezava, porque estava com medo de agir diferente. Mas eu ainda não acreditava que isso pudesse dar certo. Agora, tentando compreender os acontecimentos que me levaram a esta reunião, a este encontro particular, me perguntava, seria possível?

O microfone foi de repente parar na minha mão. Antes de falar pensei nas palavras do Terceiro Passo: Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos. Então entendi. Esta não era uma fantasia. Não tinha havido coincidências, nenhum acidente do destino.

Na minha angústia, Deus me enviou dois mensageiros: um para me mostrar que eu estava perdido, o outro para me mostrar o caminho. Eu partilhei. Falei sobre o meu tormento anterior, sobre os meus sentimentos, sobre meus medos.

Disse a eles sobre como descobri o nome desse grupo, sem saber o significado dessa descoberta. Contei como tinha encontrado o meu novo amigo, que agora estava ao meu la-do. E sobre como Deus (como eu estava começando a entender) tinha nos trazido a esta reunião.

R.H.
Culver City, Califórnia

Este depoimento foi extraído do livro
“Despertar Espiritual – Viagens do Espírito”, que em breve estará disponível para aquisição nos Escritórios de Serviços Locais.

Fonte:
Revista Vivência – nº 125
Maio e Junho de 2010