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Basta o desejo de parar de beber

Nossa terceira tradição convida-nos a acolher incondicionalmente e se possível, fraterna e amorosamente á toda e qualquer pessoa que deseja libertar-se de quaisquer angústias decorrentes do seu modo de beber.

Nasci num bom lar, meus pais nunca be-beram, ao menos não me lembro de tê-los visto bebendo; nunca me levaram a lugares onde pessoas bebiam. Comecei a beber na rua e, em pouco tempo, fui sendo apresentado a outras substâncias proibidas. Disseram-me que todo mundo usava e que eu iria gostar.

Percebi logo alguns efeitos: eu ficava meio tonto, meio alegre, meio eufórico, desi-nibido, cheio de ideias, extrovertido; adorava tais efeitos que, junto com a bebida, davam num casamento perfeito para mim.

No começo, tudo foi alegria: amigos, fes-tas, relacionamentos amorosos, a sensação de adrenalina diante dos riscos da ilegalidade, desafiando leis e valores que meus pais me passaram, frequentando lugares que eles ja-mais aprovariam, muitas vezes acompanha-do do meu filho, que era criança na época. Eu pedia uma droga ao traficante por meio de al-gum apelido, achando que, assim, enganaria meu filho, mas, depois, ele me perguntava o que era aquilo. 

Até então, meus pais só tinham visto dro-gas pela tevê ou jornais, mas consegui dar-lhes desgosto de verem drogas ao vivo, nas minhas mãos, durante apagamentos ou em meio à insanidade, quando eu não conseguia me lembrar de onde tinha guardado. Quando me perguntavam, eu mentia e manipulava: nunca era minha, a culpa sempre era de outras pesso-as. Quanto ao meu envolvimento com o álco-ol, já não era segredo para ninguém. 

Além de usar uma substância ilícita, eu fa-zia apologia: comprei um boné com o desenho da folha da planta, cuja droga se diz ser natural, leve, relaxante – mas não se diz que faz perder a concentração, ter lapsos de memória, dá uma tosse que nunca sara e, futuramente, quem sabe, dá num quadro de esquizofrenia. 
Certo dia, meu pai foi ver um jogo do time de futebol da fábrica onde trabalhava e, inocentemente, pegou o boné mais próximo — o tal, com desenho da folha. Ao voltar, veio falar comigo, disse que fizeram piadas com ele, que foi humilhado por pessoas que nem conhecia. Mostrou-se bem triste — mais um desgosto que dei a ele. 

O tempo passou, até que experimentei ou-tra droga, da qual até então tivera medo, pois a sociedade a considera o último estágio da degradação humana. Mas, quando percebi, já estava nela também. A bebida acompanhou toda essa progressão. Várias vezes, tentei parar, mas não parava de beber e, sempre que ingeria o primeiro gole, ia me drogar. 

Um dia, após um fim de semana insano no li-toral, minha esposa cha-mou-me para conversar sobre nosso casamento. Achei que ela iria embora com meu filho; que, final-mente, eu ficaria livre e daria uma festa que faria tremer o bairro. Engano meu: ela disse que daque-le jeito não dava mais, que eu deveria ir embora de casa e viver minha vida longe deles. 

Só então minha ficha caiu. Pedi para ficar ainda naquela noite. Disse que no dia seguinte procuraria um lugar para ficar, e assim foi feito. Saí logo de manhã e fui buscar ajuda em uma Irmandade de Anônimos. Eu ensaiava para entrar, quando chegaram duas pessoas que eu nunca tinha visto, deram-me um abraço e entraram na sala. Entrei também e fui muito bem recebido. Perguntaram meu nome, disseram que eu era a pessoa mais importante na-quela manhã e que a reunião seria dedicada a mim. Depois, perguntaram-me se eu tinha o desejo de parar de usar drogas. Até então, todo mundo me dizia que eu precisava parar de beber e de usar drogas, mas nunca alguém perguntara se eu desejava parar! Ergui meu braço, pois era tudo o que queria naquele momento.

Continuei voltando e, com o passar do tempo, per-cebi que, para usar outras drogas, eu sempre bebia antes. Um companheiro de quem me aproximara perce-beu, nas minhas partilhas, a presença do alcoolismo e convidou-me para ir a uma reunião de Alcoólicos Anô-nimos. Aceitei, mas, no dia marcado, ele não pôde ir. Fui sozinho e, quando me per-guntaram se eu era membro de A.A., respondi que não, mas era membro da outra irmandade. Um AA não gos-tou e avisou-me que ali era diferente, não se falava palavrão nem gírias. Eu disse a ele que apenas tinha desejo de parar de beber, por isso estava ali. 

Assisti àquela reunião, conheci mais gru-pos de Alcoólicos Anônimos e continuei cuidando da minha recuperação em A.A. Eventualmente, ainda sinto certo preconceito por parte de alguns companheiros em relação a nós, chamados de alcoólicos cruzados. Mas os Doze Passos e as Doze Tradições permitem que eu me aceite e seja aceito do jeito que sou. Tenho certeza de que, com minha experiência, qualquer AA veterano poderá perceber que, se der as costas para A.A., terá, talvez, gran-de risco de passar pelo que passei, enquanto um recém-chegado poderá identificar-se e ficar conosco. Só por hoje, não preciso beber e, evitando o primeiro gole, tenho convicção de que não cruzarei mais o que chamo de fronteira do perigo. 

Anônimo. Edição: 176 - Página: 9