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Auto imagem – “O longo caminho da mudança”

“Reneguei a linha reta, desprezei-a; queria a vida farta e fácil.

Queria seguir os meus próprios caminhos”

E o Poder Superior, concebido por cada um de nós, colocou no início da grande jornada da vida, dois caminhos, que nos levariam à meta final: o longínquo ponto a ser atingido. Uma linha reta e uma curva.

A linha reta da vida sólida, da crença, da inocência, da verdade.

A linha curva da vida de culpas, da felicidade fugaz e fingida, do “trabalho em cavar seu próprio poço de infelicidades”.

Reneguei a linha reta, desprezei-a, queria a vida farta e fácil. Queria seguir meus próprios impulsos num caminho já aparado e sem empecilhos, amores fúteis e fáceis.

Eu era feliz assim com esta auto-imagem que eu mesmo havia criado; bom emprego, uma casa, um lar, esposa e filhos. E que dizer das amizades, onde nos meus redutos de uma sociedade colaborativa e benevolente, ou ainda em bares e botequins, eu era o que gostaria de ser naquele momento, o ser feliz com todo o conhecimento do mundo, cheio de “mas” e “poréns”. E fui “tocando” minha vida.

Convidado que era para todas as festas e festinhas, eu era aquele que não podia faltar; contador de causos, de piadas, riso fácil, sempre e principalmente após as primeiras dozes, que iam num crescente até quando não mais me aguentavam.

Então, algumas vezes, gentilmente era convidado a ir para casa “descansar”. Mas, eu voltava sempre a cada novo convite para uma nova festa, porém, com uma “mascara nova”, isto é, tentava mudar minha imagem do desgaste anterior.

Na mesma proporção que crescia em mim uma estranha e até então desconhecida compulsão e obsessão pelo álcool na forma de cerveja ou qualquer outra bebida destilada, as festas, os amigos foram rareando, praticamente sumiram.

Também via meu emprego seriamente ameaçado.

O sofrimento e o sentimento de solidão começaram a fazer parte do meu ser.

Vi que me tomara impotente frente ao álcool, minha vida estava ingovernável pelo meu “eu”; ele havia tomado conta.

Foi aí que passei a contemplar a mim mesmo vendo que seria muito mais verídico que eu não existisse mais. Sim, porque na realidade as fantasias e a boa fase de sonhos e glórias estão terminando; as mudanças de máscaras, personalidade e da maneira de agir já não funcionam.

Fui descoberto! (como se já não soubessem). E o sofrimento aparece; aumenta gradativa e constantemente.

O meu lar pouco a pouco se desmoronava, apesar de toda capacidade e compreensão adquirida pela minha esposa com sua frequência ao Al-anon, com discussões, brigas que já não consideravam a presença de meus filhos, que também se afastavam ante minha presença. Não mais traziam seus amigos quando eu estava em casa. Também estavam tomando-se solitários e tristes. Eu não me apercebia dos efeitos e nem que eu era a causa. Meu cérebro recusava-se em pensar ou sentir-se culpado.

Já não conseguia fazer nada nem pensar sem tomar doses e mais doses; aí, ficava com a sensação de que todos os meus problemas haviam terminado pelo menos enquanto ainda existisse álcool em meu corpo.

Foi neste crescente sem fim de problemas sem conta, de uma luta interna em pensar, mas não acreditar, que o álcool já estava comandando minha vida, dominando quase que completamente minha maneira de pensar e agir, que senti necessidade de ajuda.

Então, começaram minhas idas e vindas por médicos, centros e retiros espirituais, enfim, tudo o que me era indicado e … nada.

O álcool ainda era parte integrante do meu ser. Até que um dia alguém falou em Alcoólicos Anônimos. Respondi: Nunca. Eu não sou um alcoólatra.

Mas um dia, abatido, derrotado, após mais um convite de minha esposa para assistir sem compromisso uma reunião de A.A., eu fui.

Cheguei então numa sala com diversas pessoas, onde mesmo sem me apresentar, apertaram minha mão, deram-me boas-vindas e disseram-me (imaginem, eu, o roto e esfarrapado moral, física e espiritualmente): “você é a pessoa mais importante neste dia nesta reunião”.

E foi ali, numa pequena saleta, que fui abordado por um companheiro que, na sua sinceridade, me contou toda sua vida de ativa, seu sofrimento, e também sua recuperação.

Ali me falou sobre esta doença física, mental e espiritual chamada alcoolismo, incurável e mortal, mas que pode ser detida.

Após estes esclarecimentos, algo mudou em mim, e de maneira positiva.

Minha mente sentiu este lampejo de que havia uma solução, afinal eu era um doente, não precisava envergonhar-me e podia me tratar.

Agora dependia exclusivamente de mim. Disse-me também que era importante reacender minha fé, já que A.A. é um programa baseado na espiritualidade, voltar a acreditar em um Poder Superior que eu mesmo podia conceber.

Concebi como meu Poder Superior um Deus amantíssimo, imparcial e bondoso.

Sendo assim, passei a frequentar as reuniões, dedicar-me à literatura de A.A. e tentar praticar, dentro de minhas possibilidades e compreensão, os Doze Passos, as Doze Tradições e os Doze Conceitos, que formam os nossos 36 princípios espirituais.

Minhas dificuldades simplesmente não terminaram aí, mas já tinha forças para contornar, superá-las ou compreendê-las melhor.

Aprendi o maior dos bens; o de saber perdoar-me, pois assim tornou-se mais fácil compreender o próximo.

Hoje, sinto-me feliz em integrar este enorme “mundão”, mesmo como uma gotinha, um grão de areia neste imenso mar humano.

Já posso sonhar sem me deixar vencer pelos próprios sonhos. Se o meu hoje ainda tem espinhos, por que não posso esperar as rosas?

Hoje acredito – estou criando estas condições de cuidar-me com serenidade, coragem, sabedoria e principalmente fé neste meu Poder Superior.

E é assim nesta fartura de felicidade que olho para dentro de mim mesmo e vejo a tremenda e benéfica mudança que ocorreu no meu modo de ser e de minha autoimagem.

Rubens A. / SP

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“Naturalmente, meu inventário foi frequentemente
imperfeito. Às vezes não compartilhei meus defeitos com as
pessoas apropriadas; e em algumas ocasiões, confessei seus
defeitos, no lugar dos meus; e em outras, minha confissão de
defeitos pareceu-me mais com uma queixa clamorosa de
minhas circunstâncias e problemas. Não obstante, creio
que, no geral, ao buscar e admitir meus defeitos pessoais,
pude fazer um trabalho minucioso e completo. Que eu saiba,
não há neste momento nenhum defeito ou problema atual
meu que não tenha discutido com meus conselheiros
íntimos. Mas havê-los exposto amplamente não é motivo
para me cumprimentar a mim mesmo. Faz muito tempo tive
a sorte de ver que tinha que continuar fazendo minha auto-
análise; senão, teria enlouquecido completamente.

Ainda que motivado pela pura necessidade, o me
descobrir continuamente – frente a mim mesmo e frente a
outras pessoas – era uma coisa difícil de engolir.

Porém, anos de repetição tornaram essa tarefa muito
mais fácil.”

Fonte: “A Linguagem do Coração”.

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Vivência n° 96 ¬ Jul/Ago. 2005